12 de julho de 2010

Livro: Treva Alvorada

Em  seu sexto livro, a poeta Mariana Ianelli canta a morte, a angústia, os rateios da fé, sem negar-lhes a generosidade de uma feição lírica.
 



 
"Os versos parecem nascer em algum ponto da imaginação literária onde o lirismo se entrelaça ao mito, à religião, à filosofia para aludir a experiências originárias com significados há muito abolidos ou empalidecidos pela vida moderna".
(Jair Ferreira dos Santos)
 
 
Dividido em nove partes, Treva Alvorada, novo livro da poeta paulistana Mariana Ianelli, apresenta uma estrutura que sugere uma paisagem de nove povoações, como dizem os versos de Carlos Drummond de Andrade na epígrafe, povoações que “surgem do vácuo”. Treva Alvorada é resultado de diferentes núcleos poéticos, não separados entre si, mas integrantes da síntese que nomeia o volume. Elementos míticos e bíblicos percorrem e alimentam a voz poética de Mariana Ianelli que, neste sexto livro, se entrega à procura do outro, de um íntimo reordenamento de si mesmo, uma metamorfose e um renascimento. Treva Alvorada apresenta-se também como um tributo poético ao pintor Arcangelo Ianelli - avô da poeta e autor da capa do livro.    
Escritos em pouco mais de dois anos, todos os 45 poemas de Treva Alvorada, cada um a seu modo, transmitem um enlace de opostos, uma passagem do abismo para a luz, do exílio ao retorno a casa, uma jornada que une os extremos de partida e de chegada de um viajante. A figura do soldado, por exemplo, é uma das encarnações desse viajante, que é também um desertor, um “cordeiro desgarrado do adeus”, alguém que burla a destrutividade humana e, por um instante, assume o difícil papel de honrar a vida. “É inútil desafiar o pó / E, contudo, desafia-se” são versos que expressam essa perseverança quase absurda do poeta, de responder à extinção das coisas com uma ação de graças à vida. 
Em uma época, de modo geral, avessa ao cântico, Treva Alvorada se assume um livro de sutil expressão lírica aliada ao pensamento, no qual a passagem da “noite” para o “dia” insinua, internamente, uma beleza que nasce da violência. A exemplo do poema “Palavra”, que se oferece para o leitor, tal como a Sulamita do Cântico dos Cânticos, que sai à procura do amado e é espancada pelos guardas da cidade, a autora de Treva Alvorada investe em um despojamento radical de subterfúgios para cantar a morte, a angústia, a desonra, os rateios da fé, sem negar-lhes a generosidade de uma feição poética. 
Aos 30 anos, tendo seu primeiro livro, Trajetória do antes, publicado em 1999, com apenas 20 anos, Mariana Ianelli volta, com novo olhar, a algumas figuras e temas que lhe são caros. O poema “Variações para morte”, por exemplo, já visitado nos livros Duas Chagas (2001) e Fazer silêncio (2005), renasce em Treva Alvorada. A figura de Cassiana, presente em “Manuscrito do Fogo”, do Almádena (2007) – livro premiado pela Fundação Bunge de Literatura em 2008 – e também em "Acalanto para Cassiana", do Trajetória do antes, volta agora como título de poema dos versos "Fome profunda, escuro do açude/ Cassiana, por que te dar outro nome?”.
  
Biografia: 
Mariana Ianelli nasceu em 1979 na cidade de São Paulo. Formada em Jornalismo, mestre em Literatura e Crítica Literária, colabora esporadicamente para o Jornal Rascunho (PR). Tem participação em antologias brasileiras e estrangeiras, livros de arte e revistas literárias. Em 2008 recebeu o Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista), Literatura, na categoria Juventude. 
No site oficial da poeta, Mariana Ianelli declama versos de Treva Alvorada: 
Treva Alvorada
Mariana Ianelli
Editora Iluminuras
128 páginas
R$ 35,00
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