30 de julho de 2010

Vale a pena ler de novo...


Em janeiro de 1998, a Revista Veja, em matéria de Glenda Mezzaroba, trouxe uma matéria sobre o Poty ilustrador. Veja a reprodução abaixo:


Parceiro das Letras
O traço preciso do ilustrador Poty reaparece na companhia dos maiores escritores

Para Guimarães Rosa, o ourives da língua brasileira, ele foi "Potyrama". O maior contista do país, Dalton Trevisan, só o chama de "Mestre". Quando não usava palavrões em italiano para se referir a ele, o plástico Carybé o tratava por "Andorinha".
Seu verdadeiro nome, Napoleon Potyguara Lazzarotto, é o de um ilustre desconhecido. Poucos, muito poucos, são capazes de associá-lo a Poty, o genial curitibano que, aos 73 anos e tendo trabalhado com todos os figurões da literatura brasileira além dos citados acima, há também Gilberto Freyre, Jorge Amado, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz, é o mais importante ilustrador brasileiro. E continua na ativa. São dele, por exemplo, os traços precisos que estão na capa de um audiolivro recém-lançado com trechos do romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Recuperando-se de uma cirurgia no pulmão e 14 quilos mais magro, Poty sobreviveu a quase todos os seus parceiros de criação. O termo "parceria" se justifica porque o artista não é um burocrata que se limita a fazer desenhos sob encomenda. Faz questão de mergulhar no universo dos escritores cujas obras ilustra. Além de ler o manuscrito da obra, Poty costuma manter longas conversas com os autores, que lhe permitem penetrar nos desígnios da criação. É por essa forma de trabalhar que, além do traço preciso no papel, o ilustrador se transformou num memorialista informal dos literatos brasileiros.



Guimarães Rosa  - Inesquecível, por exemplo, a confissão de Guimarães Rosa. "Várias vezes ele disse que escrevia em transe", revela Poty, parecendo ter razões para acreditar no que ouviu. "Quando Rosa tirava os óculos, não era só a expressão de míope que aparecia. Era um outro rosto", conta. Essas não eram as únicas excentricidades de Rosa. Poty também lembra as recomendações que o escritor fazia quando pedia desenhos bizarros para ilustrar o livro de contos Sagarana. "Ele exigia, por exemplo, que a imagem de um sapo fosse colocada dentro de um círculo, em cima de um poste de telégrafo. Eu nunca entendi isso, mas fiz." Foi por essa convivência que na hora de fazer a edição especial do conto "A hora e vez de Augusto Matraga" a Confraria dos Bibliófilos do Brasil escolheu Poty. E que da pena do mesmo artista tenham saído as ilustrações de Magma,o único livro de poesias de Guimarães Rosa, que o autor não teve coragem de publicar em vida e só veio à luz no ano passado Grande Sertão: Veredas era um ótimo contista. 

É preciso um sentido.
Para uma edição de Os Sertões, de Euclides da Cunha, Poty refez, de caminhão, a trajetória da expedição, a partir da Bahia. Hoje longe dessas aventuras e tendo reduzido bastante a atividade de muralista em concreto aparente técnica que domina.
Recuperando-se de uma cirurgia no pulmão e 14 quilos mais magro, Poty sobreviveu a quase todos os seus parceiros de criação. O termo "parceria" se justifica porque o artista não é um burocrata que se limita a fazer desenhos sob encomenda. Faz questão de mergulhar no universo dos escritores cujas obras ilustra. Além de ler o manuscrito da obra, Poty costuma manter longas conversas com os autores, que lhe permitem penetrar nos desígnios da criação. É por essa forma de trabalhar que, além do traço preciso no papel, o ilustrador se transformou num memorialista informal dos literatos brasileiros.
Como um violino 

Poty passa boa parte dos dias em seu ateliê, num tranqüilo bairro curitibano. Debruçado sobre uma mesa enorme, não abre mão de um papel de qualidade e prefere as velhas canetas nanquim com pena na ponta. "Elas refletem todo o nervosismo e podem ser manejadas como um violino", compara o artista, que há apenas cinco anos incorporou a cor suas obras. Calado até mesmo com as pessoas que desfrutam sua intimidade, ele é daqueles sujeitos tímidos e sensíveis que impressionam pela generosidade. Prova disso é a doação que fez à cidade de Curitiba, em 1986, depois da morte da mulher, Célia, e que permitiu a criação do Museu Metropolitano de Arte. Entregou cerca de 1.000 peças entre gravuras, desenhos, pinturas, esculturas, imagens religiosas e objetos indígenas. Do acervo pessoal do artista constavam trabalhos de Guignard, Pancetti, Portinari, Djanira, Di Cavalcanti e duas gravuras de Picasso, utilizadas nos estudos de Guernica. "A gente some mesmo. No museu todo mundo vê."

Glenda Mezarobba
Fotos Marcos Campos
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