20 de agosto de 2010

Por que a arquitetura paulistana reflete hábitos e cultura dos moradores nas plantas?


Artigo da arquiteta Renata Marques identifica nos bairros de São Paulo - como Móoca, Perdizes, Liberdade - cada tendência na definição do lay-out das plantas dos imóveis.


*Renata Marques
Geralmente, ao escolher um bairro para fixar residência os moradores costumam prestar atenção ao ritmo de vida das regiões. Algumas áreas são reconhecidas pela vida noturna agitada, outras pela variedade gastronômica ou cultural, ou ainda pelas opções de lazer para crianças. É bastante interessante a relação estabelecida entre a cultura e o estilo de vida dos moradores, fator que influencia diretamente na definição do lay-out das plantas das construções.
Na verdade, trata-se de um processo natural. As casas e apartamentos refletem nas plantas as necessidades e costumes de cada cultura ou estilo de vida. Por exemplo, em bairros com forte influência de imigrantes portugueses ou italianos as áreas de convivência, como cozinhas e salas, costumam ser muito valorizadas.
Bairros como Tatuapé e Móoca refletem essas características em seus empreendimentos. Nessas regiões, a maior parte da área construída costumava ser ocupada por casas espaçosas com jardim e quintal, além de cozinhas e salas amplas, para receber os familiares. Um ponto a se destacar entre os descendentes desses povos é o prazer em cozinhar e estar próximos da família. Por isso as áreas de convivência são tão valorizadas.
Aquela zona está passando por um novo boom imobiliário, e desta vez, acontece a verticalização dos imóveis, mas sem deixar de lado essas preferências, que podem ser observadas em outros aspectos. Para essas famílias, apesar dos filhos muitas vezes não morarem mais com os pais, é importante ter várias vagas na garagem, facilitando o acesso de quem as visita. Nas áreas externas dos apartamentos, a sacada tem muita importância porque oferece o conforto de estar ao ar livre, como nos quintais e jardins, ainda que dentro do apartamento.
Em outra direção, a região central de São Paulo e bairros como a Bela Vista, que antigamente costumavam ser habitados por imigrantes, recebem muitos empreendimentos em forma de estúdio - um grande cômodo apenas, com todos os ambientes integrados. Na verdade uma solução moderna para solteiros e recém-casados, que buscam o local pela efervescente vida cultural.
Percebemos também, a flexibilidade de lay-out nos imóveis voltados para os jovens. Tudo é desenvolvido visando praticidade; os apartamentos não têm lavanderia, por exemplo, e a área de serviço é conjunta.
Já na região da Liberdade, o diferencial pode ser notado no estilo das construções que lembram a arquitetura Oriental. Observa-se desde telhados inclinados em estilo japonês até influências culturais, seguindo as orientações do Feng Shui.
Perdizes, por sua vez, destaca-se como um bairro essencialmente de casas verticalizadas ao longo do tempo. As construções antigas dão lugar a apartamentos mais modernos e seguros. Esta já é uma região onde as principais mudanças são para adequar os prédios à questão de oferecer mais segurança.
Cozinhas e áreas de convivência ganham importância
Os espaços gourmet e cozinhas estão mais valorizados do que nunca nos novos empreendimentos, já que acabam funcionando inclusive como áreas de convivência. É um reflexo da cultura culinária que chega ao Brasil sob forte influência dos franceses e italianos. O brasileiro está descobrindo o prazer de cozinhar, de experimentar novos pratos e, principalmente, vivenciar este processo.
















* Renata Marques é arquiteta, especializada em gerenciamento de projetos para grandes incorporadoras e também no desenvolvimento de plantas arquitetônicas residenciais.
www.renatamarques.com.br
Foto Gabriela Quinália


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