2 de março de 2011

Crônica : Viagens pela Patagônia - "Respeito"


O escritor Célio Pezza relata a experiência de uma viagem por uma região da Cordilheira dos Andes e o contato com um descendente dos índios Mapuches que falou sobre suas crenças, sua fé, sua lógica e seu profundo respeito.

Viajar faz bem e sempre tiramos alguma lição. Uma das mais interessantes que fizemos foi para a Patagônia, em um refúgio nas montanhas, ao lado da cordilheira dos Andes. Lá não existe eletricidade e o nível de conforto é baixo, mas o contato direto com a natureza faz crescer uma força interna que nem imaginávamos possuir. Na primeira noite em que saímos para caminhar pelo bosque perguntamos ao "refugiero"(*) se não era perigoso, pois sabíamos da existência de pumas naquela região. 
Ele simplesmente nos levou até a entrada de uma das trilhas e disse que ia nos ensinar uma coisa importante:
Veja, disse ele, aí dentro existe muita energia e muitas formas de vida. Nessas matas moram seres que vemos e outros que não vemos. Eles existem e esta é a casa deles. Para entrar na casa dos outros, vocês devem pedir permissão e explicar o motivo da visita. Se vocês querem usufruir da energia do local e apreciar a paisagem, basta pedir e entrar, pois serão bem vindos e terão a proteção necessária. Porém, se perceberem algum sinal para interromper a caminhada, é melhor voltarem para o refúgio.
Aquele conselho desencadeou uma série de perguntas:
Como saber que fomos ouvidos por alguém? Como saber que devemos interromper o passeio? Como perceber tudo isso?
Ora, é simples, disse ele: Primeiro, se você crê na existência de seres que vivem nas matas, por que não crer que eles ouviram seu pedido? É só uma questão de crença. Para perceber a hora de voltar, basta estar atento aos sinais da floresta. Por exemplo, se cair um galho lá do alto bem na sua frente, como a cortar o seu caminho, é um sinal; se estiver tudo calmo e, de repente, soprar um vento forte ao lado, é um sinal; cada um de nós recebe um sinal diferente e tem a sua interpretação. Existem sinais que transmitem satisfação e outros que transmitem receios. Se estiverem atentos, perceberão o sinal.
Essa explicação simples nos deu uma idéia da cultura daquele povo das montanhas. Aquele refugiero, na sua inocência, nos definiu sua crença, sua fé, sua lógica e seu profundo respeito. Na sua concepção, não são deuses que ali moram, mas outros habitantes deste nosso mundo, visíveis ou não aos olhos humanos e ele não tem medo e sim muito respeito, o que é bem diferente. Ele não pede permissão por submissão, mas por respeito!
Também sua fé é inquestionável e a sua lógica perfeita quando diz:
 ─ Se creio que existem, por que não crer que me ouvem?
Ele sabe dos seus limites e tem um profundo respeito pelo limite dos outros. Ficamos pensando em como nós, habitantes das grandes cidades, nos desacostumamos destas coisas simples e, como faria bem a todos nós, se houvesse um respeito pelo outro, da forma como aquele homem nos mostrava. Não medo, mas respeito! E a sua fé era inquestionável. É difícil encontrar esta fé mesmo dentro das maiores igrejas das nossas cidades. O mundo seria bem melhor, caso tivéssemos uma fé e um respeito tão grande pelos outros seres. Talvez pudéssemos caminhar com mais segurança pelas ruas das grandes cidades, da mesma forma como caminhamos pelos bosques da Patagônia! 
Respeito! Essa é uma das chaves! Profundo respeito por tudo que está ao nosso lado. É um conceito simples e vale a pena disseminá-lo ao nosso redor.       
(*) - "refugiero" - nome dado a quem toma conta do refúgio, mantendo em funcionamento - no caso, era um descendente dos índios Mapuches, antigos habitantes daquela região.

Sobre Célio Pezza


Célio Pezza é escritor, mas tem sua formação acadêmica em Química e Administração de Empresas. Nascido em Araraquara, interior de São Paulo, Célio mora atualmente em Veranópolis, no Rio Grande do Sul. Suas obras são: A Nova Terra (1999 – Brasil) / - O Conselho dos Doze (2000 – Brasil) /  The Seven Doors – em inglês (2006 by Trafford Publishing, Canadá-USA-UK) / As Sete Portas (2008 – Brasil) / Ariane (2008 - Brasil) / A Palavra Perdida (2009 – Brasil)
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www.celiopezza.com
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