9 de julho de 2011

FLIP: “Se você não começar a perguntar sobre o meu livro, eu vou embora”, disse Claude Lanzmann

Ao mediar a apresentação do escritor e cineasta  Claude Lanzmann, o professor Márcio Seligman Silva se distanciou tanto do objeto de análise, o livro A lebre da Patagônia, que foi duramente advertido pelo entrevistado.


Lanzmann e Seligman, diálogo e desencontro
Lanzmann ameaçou se levantar e abandonar o palco da Tenda dos Autores se ele não entrasse diretamente no tema.




                                           A ética da representação: Não poderia haver expressão mais fiel e autêntica do tema que ocupou a mesa 9 da Flip, na noite de sexta-feira, dia 8: a ética da representação. Na tentativa de mediar a apresentação do jornalista, escritor e cineasta francês Claude Lanzmann, o professor de Teoria Literária da Unicamp Márcio Seligman Silva se distanciou tanto do objeto de análise, o livro A lebre da Patagônia, que foi duramente advertido pelo entrevistado. Lanzmann ameaçou se levantar e abandonar o palco da Tenda dos Autores se ele não entrasse diretamente no tema.
Foi um momento de ruptura, quando Lanzmann, um intelectual denso e homem de ação, perdeu a paciência com o tom professoral do entrevistador. Até então, Seligman Silva havia desfilado seu conhecimento sobre a biografia de Lanzmann, concentrando-se, porém, em sua obra cinematográfica, em especial sobre o monumental Shoah, filme com 9 horas de duração feito com depoimentos de sobreviventes dos campos de extermínio nazistas.
O entrevistado já havia feito uma longa concessão, falando de seu desconforto em haver mentido para si mesmo e para o governo de Israel, no tempo de Menachem Begin, ao concordar em produzir o filme em dois anos, com a duração de no máximo duas horas. Ele sabia que a tarefa seria impossível, e isso o incomodava moralmente. Também discorrera longamente sobre um episódio ocorrido em Cesarea, na época dessa negociação, quando quase morreu afogado enquanto nadava no traiçoeiro Mediterrâneo Oriental.
Falava, então, sobre o fascínio da morte, tema recorrente em sua obra e núcleo do livro em lançamento, abrindo a possibilidade de um contraponto com o estilo vertiginoso que sempre deu à sua vida: desde a juventude, quando liderou um grupo da resistência francesa à ocupação nazista, tendo sido protagonista destacado de eventos definidores do século XX, conforme havia destacado Seligman Silva, até os tempos recentes, quando ousou voar de F-16 e de parapente.
Era a oportunidade para estabelecer o paralelo entre seu gosto pela vida radical, ou seu gosto radical pela vida, com o fato de sua trajetória ter sido sempre conectada à violência entre os homens.
“Amor e temor da morte estão presentes no livro, observou Seligman Silva, antes de retornar à análise do filme. O ponto de saturação entre a expectativa do autor e a disposição do entrevistador ocorreu após Lanzmann confessar que, no episódio de seu quase afogamento, não experimentou qualquer alegria por haver sobrevivido.
Era a conexão ideal com o livro, que relata, entre outros episódios, a perturbação que lhe provocou o suicídio da irmã: o possível conflito ético entre o amor à vida e o flerte com a morte. Mas o intelectual encarregado de mediar a apresentação do autor à platéia se prendeu à “atração que ele tem ao longo da vida pela representação da morte”. E retornou à análise do filme Shoah, que na sua opinião tem a curiosidade de não ser documentário nem ficção. Lanzmann observou que Shoah “não é um filme sobre a sobrevida, mas sobre a radicalidade da morte nas câmaras de gás em campos de extermínio”.
Era a porta de passagem para o tema do evento. “Tem a ver com a ética da representação: o que significa representar e calcular essas mortes?”, ponderou Lanzmann, acrescentando que “existem coisas que são impossíveis na arte”. O incômodo do cineasta com o dilema presente em sua própria obra cinematográfica é o substrato de sua obra recente como escritor – os verdadeiramente mortos não podem ser representados pelos que sobreviveram. Em A lebre da Patagônia ele conclui que o holocausto – shoah, para os judeus – simplesmente não poderia ser relatado, por causa da radicalidade da violência que desabou sobre as vítimas do nazismo. Ao mesmo tempo, refere-se à inevitabilidade da morte para a lebre que se defronta com os cães de caça.
Lanzmann perdeu a paciência quando Seligman Silva enveredou por observações sobre os existencialistas franceses. Sendo ele próprio o último dos parceiros de Jean-Paul Sartre, e tendo sido amante de Simone de Beauvoir, além de seguir ocupando seu posto como diretor da revista Les Temps Modernes, entendeu que não era o caso de entrar em outro tema paralelo. Interrompeu o interlocutor para ameaçar: “Se você não começar a perguntar sobre o meu livro, eu vou embora”. Questionou o entrevistador, perguntando se ele queria demonstrar erudição sobre o ambiente cultural de Paris e desfechou: “Você está me tratando como débil mental”.
Seligman desviou-se do golpe, introduziu perguntas da plateia e o encontro terminou em paz e concordância alguns minutos depois.
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