2 de novembro de 2011

"Aniversário", Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)


Para o Dia de Finados ...


No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


15/10/1929


Análise do poema "aniversário" 

Escrito em 1929, portanto já um poema de maturidade de Pessoa, o poema "Aniversário" pode certamente contar-se entre os poemas mais tristes e simultaneamente pungentes de toda a obra do poeta.
Lembremos porém, e em antecipação à análise propriamente dita, a biografia deste heterónimo. Campos é o heterónimo da modernidade em Pessoa, é o escandaloso, o extrovertido, cuja poesia (sobretudo em prosa) propicia a oralidade - é feita quase para ser declamada em voz alta. Sem métrica definida, muitas das vezes autor de longas odes, Campos marca a diferença também por essa forma de encarar a poesia. O caos do seu método é o caos do mundo moderno que ele retrata tão magistralmente, quer nos momentos activos (fase modernista), quer passivos (fases decandentista e pessimista).
O poema "Aniversário" enquadra-se precisamente na última fase do poeta, a fase dita "pessimista", em que os temas abordados por Campos voam em redor da sua desilusão com a vida, com a amargura e a lembrança de um passado para onde nunca mais poderá regressar. "Aniversário" é mesmo marcado por essa recordação da infância: " No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / Eu era feliz e ninguém estava morto".
Campos parece referir-se aos anos de infância de Pessoa, em que nenhum dos seus irmãos tinha ainda morrido, e o seu próprio pai ainda o acompanhava. Nesse "tempo", festejar os anos era ainda uma festa inocente e feliz. Tudo isto na "casa antiga", na casa de infância. Talvez a casa do Largo de S. Carlos, ao Chiado, onde nasceu. Esse tempo passado é um tempo feliz, mas simultaneamente um tempo perdido, ...

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