25 de novembro de 2011

Revolução na Fórmula 1, única saída para Massa


*Artigo de Tom Capri: (Veja como o piloto brasileiro pode se
valer do Manifesto Comunista para
introduzir humor e fazer história na
categoria, que anda tão sem graça)




(bmantovani 2008 http://www.todo-f1.com)




Quando o espanhol Fernando Alonso acenou, em 2009, que passaria a correr pela Ferrari, imediatamente eu disse aqui que estava encerrada a frustrada e frustrante carreira do piloto brasileiro Felipe Massa na Fórmula 1. Isto porque não via mais saída para Massa, tudo estava perdido a partir de então. Mas agora vejo. É aliar-se aos pilotos que estão na mesma condição --- aqueles que são meraescada dos companheiros de equipe --- e pôr a boca no trombone. Em resumo, é liderar a primeira grande e tsunâmica revolução da história da Fórmula 1. Além de dar uma chacoalhada, a epifania de Massa levaria mais humor e diversão à categoria, resgatando o charme e aquele romantismo de seus primórdios, quando o piloto tornava-se mito por méritos (virtudes e qualidades), como Jim Clark, Fângio e Ayrton Senna (e não porque “compra” a escuderia e faz dela sua sala de estar, à la Michael Schumacher). Esta é a única saída do piloto brasileiro, já que ele não tem mais o que fazer nem o que perder no Cirquinho da F-1. Resta saber se Massa --- e os pilotos descontentes que se encontram na mesma situação, como Rubinho Barrichello, Lewis Hamilton, Mark Webber, entre outros --- estão dispostos a deflagrar revolução assim e se têm peito e condições objetivas para tanto. É o que passo a avaliar a seguir.

A Fórmula 1 transformou-se nesse mega-negócio chato, sem charme e de cartas marcadas em que o piloto --- para ser o número um, ganhar corridas e conquistar títulos --- tem de “comprar” a equipe, para nela poder pilotar como rei, não precisa nem ser o melhor do team. Ou seja, basta ao piloto ter, hoje, algum talento e suficiente cacife para carrear mais recursos de patrocínio à equipe do que seu companheiro de escuderia. No caso da Ferrari, Fernando Alonso é hoje quem domina a cena, “manda” mesmo, dita as regras. Massa é mero escada dele ou, como se diz na gíria dos atores de novela da Globo, é mero orelha do espanhol (orelha é aquele ator sem vida que tem, como única função, escorar e amparar o protagonista de sua trama, na novela).

Até 2007, Massa era o mais forte candidato a novo mito do automobilismo mundial. Tinha tudo para tornar-se um Jim Clark ou Ayrton Senna. Estava com o melhor carro (Ferrari) e já chegara à equipe superando seu veterano companheiro, Michael Schumacher, então com o recorde de sete mundiais conquistados. Mas aí Schumy decidiu se aposentar e foi substituído pelo finlandês Kimi Raikkonen. E a questão de ter mais cacife passou a imperar na vida de Massa. Principalmente porque a Europa entrou em crise financeira. A F-1 sentiu a retração por parte dos patrocinadores e passou a valorizar mais ainda o piloto que “traz mais dinheiro”.

Não havia um único finlandês adulto que não estivesse apoiando Raikkonen naquela sua nova investida, ajudando inclusive financeiramente (toda a Finlândia escorava o piloto). Já Massa não podia contar com igual apoio dos brasileiros, nem mesmo da Globo, que na época também o ajudava. E o que resultou disso foi uma disputa acirrada entre o finlandês e o brasileiro, em que Raikkonen levou sempre a melhor, já que era favorecido pela Ferrari. Só muitas corridas depois, Massa conseguiu bater o finlandês nas pistas e dentro da equipe, mas nunca a ponto de se tornar o número um nos tempos de Kimi, até termos a “Avalanche Alonso”.

Repito: tão logo o espanhol acenou que fecharia contrato com a Ferrari para tomar o lugar do finlandês, anunciei aqui em primeira mão para o mundo que Massa havia, naquele momento, encerrado sua carreira na F-1. Estava muito claro para todos, inclusive para a mídia especializada brasileira (que, repito, é omissa e mentirosa, por ser parceira direta ou indiretamente dos negócios da F-1, daí não poder denunciar nada), que Alonso chegara para “abafar” o piloto brasileiro.

Fechado com patrocinadores como o Santander, que ainda sonha em ter o espanhol como o maior de todos os tempos, superando Schumacher, Alonso nem bem chegou e logo passou a receber o melhor carro. Tanto nas tomadas para o grid de largada quanto nas corridas. Massa, que já havia provado nas pistas ser mais rápido e técnico do que Alonso, só recebia carro em igualdade de condições ao do espanhol quando a Ferrari precisava pontuar para melhorar sua posição no Mundial de Construtores, também importante para as equipes.

Desde a chegada de Alonso à Ferrari, o carro do espanhol tem sido de 300 a500 milésimos de segundo mais rápido que o de Massa, salvo nas situações em que o brasileiro precisa muito pontuar. Nessas raras ocasiões, Massa sempre conseguiu melhor tempo para a largada e também se saiu melhor na prova. Até que, numa dessas ocasiões pró-Massa, o brasileiro foi obrigado a dar passagem a Alonso (2010), escancarando o problema. Dali em diante, Massa não teve mais vez na Ferrari.

A equipe voltou para a atual temporada já vacinada contra o brasileiro. Desprezou o Mundial de Construtores e não deu mais chance a ele, tanto que Massa não conseguiu nenhum pódio em 2011. E duvido que consiga neste GP do Brasil, uma vez que Alonso ainda briga pelo vice, importantíssimo neste momento para a Ferrari.

O preço que Massa tem pago por todo esse calvário é tão caro quanto o pago por Barrichello, no tempo em que Rubinho corria pela Ferrari, ao lado de Schumacher. Condenado por contrato a ser escada (ou orelha) de Schumy --- como Massa é hoje de Alonso ---, Rubinho assistiu impassível na época, e sem poder fazer nada, ao declínio de sua própria carreira, que poderia ter sido brilhante. Rubinho é, sem dúvida, um dos cinco melhores pilotos de sua geração, com virtudes e qualidades para ter conquistado, no mínimo, dois títulos mundiais na F-1. Mas nunca teve vez.

Tal como aconteceu com Rubinho, se Massa tivesse peitado a Ferrari e denunciado tudo isso, poderia não estar mais numa equipe de ponta. E talvez tivesse até de pagar para correr na categoria, como faz hoje Barrichello. Porém, se continuar assim calado, corre o risco de vir a ser chamado de o “novo pé-de-chinelo” ou o “novo Rubinho” da F-1. Não podemos esquecer que a mídia especializada transformou Rubinho, injusta e maldosamente, em pé-de-chinelo e sinônimo de fracassado. Até hoje, é comum ouvir alguém dizer que “fulano é o Rubinho disso ou daquilo”.

Isto também já está acontecendo com Massa. Recentemente, a UOL postou matéria jocosa em seu site, com chamada na home, mostrando o que acontecia na época em que Massa “ainda ganhava corridas na Fórmula 1”. Eu já havia cantado essa bola quando, há cerca de dois anos, dei por encerrada a carreira de Massa, por conta da chegada de Alonso à Ferrari. Em alguns artigos, eu havia dito que, dali em diante, o piloto brasileiro saltaria em pouco tempo, de maior candidato a novo mito do automobilismo, para a condição de novo pé-de-chinelo e novo Rubinho da F-1. E não deu outra.

Agora, para consertar toda essa encrenca, teremos outro calvário mais duro ainda. A única saída que vejo para Massa, neste momento, é --- repito --- unir-se a esses pilotos que estão na mesma situação e liderar uma revolução na Fórmula 1.

Há vários pilotos enfrentando o mesmo problema, como Rubinho Barrichello, hoje um “exilado” na Williams, que não tem mais nem a velha parceria com a BMW, que tanto a fortalecia; Lewis Hamilton, que não recebe o mesmo apoio dado a Jenson Button e vinha se queixando até mesmo de racismo por parte da mídia e até da McLaren; Mark Webber, que incomodou muito em 2010 e quase “roubou” o título mundial de Sebastian Vettel, mas foi passado literalmente para trás este ano pela Red Bull; e, por fim, todos aqueles pilotos que, como Bruno Senna, ainda lutam ferozmente para chegar a uma equipe de ponta, mesmo sabendo que isso é quase impossível hoje na F-1.

Vale repetir de novo: o único jeito, agora, é essa gente unir-se em torno da causa, que é comum a todos os insatisfeitos do Cirquinho, e denunciar isso em que acabou se transformando a Fórmula 1: esse jogo sem charme e mal-humorado de cartas marcadas, essa farsa sem graça em que só vence corridas e chega ao título o piloto que tem cacife para “comprar” equipe de ponta e impor-se nela como número um (como vimos Schumacher e Alonso fazerem e estamos vendo Vettel repetir).

Rubinho já havia esboçado revolta desse tipo em 2009, quando não tinha mais equipe para correr. Prometera pôr a boca no trombone e até escrever livro contando toda essa verdade. Mas foi calado há dois anos pelo convite da Williams (na qual faz sua segunda temporada) e também pela Globo, que o chamou na época para algumas entrevistas em horário nobre, dando “aquela” forcinha para que permanecesse na Fórmula 1.

Mas será que Massa tem forças e reúne talento e qualidades para contagiar esses pilotos e liderar uma revolta assim? Se ele fosse Ayrton Senna, eu não teria dúvida. Mas não é. As cartas estão na mesa, há muitos insatisfeitos e infelizes na categoria. O problema é que Massa vem tendo atritos com pilotos como Lewis Hamilton, quando deveria aliar-se a eles. Além do mais, a McLaren quer o vice e o 3º lugar da atual temporada e, por isso, teve de voltar a apoiar Hamilton para poder chegar lá. Hamilton tornou a vencer, não sei se viria a ser um aliado de Massa a essa altura do campeonato.

A organização da Fórmula 1 também está doida para acabar com o GP do Brasil, como já fez com as provas dos Estados Unidos. Por fim, dias atrás, Massa sugeriu a Rubinho que parasse de correr, por não achar correto que piloto pague para se manter nas pistas. Deveria estimular Rubinho a continuar, para tê-lo como aliado numa eventual revolta. Só faz sentido Rubinho parar agora se for para pôr a boca no trombone, naquele livro que prometeu. Ademais, revolução você faz quando ainda está dentro, é vítima da situação e parte ativa do processo e do movimento.

E mais: uma revolução desse naipe não contaria jamais com o apoio da mídia, que é, hoje, na sua maioria, vale repetir, parceira nos negócios da Fórmula 1. Todos os jornalistas especializados do País sabem que é isso o que rola na categoria. Alguns não fazem nada porque ou ignoram isso ou estão de mãos atadas e não podem escrever a respeito. Outros, justamente porque aspiram trabalhar um dia na Rede Globo, também evitam abrir a boca. Bobinhos, não sabem que, se ameaçarem pôr a boca no trombone, serão rapidamente chamados pela Globo, pródiga em cooptar e calar (com bons cachês) jornalistas que ameaçam a participação dela em eventos altamente lucrativos, como a Fórmula 1.

Só nos resta esperar por um rompante desses, da parte de Massa, similar aos inúmeros que ele já teve nas pistas, quando ainda peitava Alonso, mesmo correndo o risco de ser escorraçado da Ferrari. Se vier a fazê-lo, com certeza vai levar um pouco de humor à Fórmula 1. No mínimo, resgataria aquele charme dos bons tempos. E não seria o primeiro brasileiro guerrilheiro da F-1 a fazer história assim na categoria. Émerson Fittipaldi já havia mudado a cara da F-1, nos anos de 1970, ao impor novo padrão de segurança. E também Nélson Piquet, Ayrton Senna, José Carlos Pace, Wilsinho Fittipaldi e outros (todos eles) puseram sua pitada, ao acrescentar o tempero brasileiro.

Na pior das hipóteses, Massa voltaria a se divertir no mundo das corridas, ele que anda tão desgostoso de tudo e não sorri mais. Já está perdido, mesmo. Se vier a ter essa tomada de consciência, sugiro que leia antes o Manifesto Comunista, de Marx e Engels, pondo-o em prática em seguida, para cercar de mais humor ainda a sua rebelião. Não precisa ler tudo. Bastam o primeiro e o último parágrafos, transpondo-os rapidamente para o universo da Fórmula 1.

Eu mesmo faço isso por Felipe, facilitando as coisas para ele. Adaptado para a Fórmula 1, o primeiro parágrafo do Manifesto ficaria assim: “Um espectro ronda a Fórmula 1 – o espectro dos indefesos pilotos de ponta bastante insatisfeitos com sua condição de escada ou orelha”. E o parágrafo final doManifesto receberia essa redação: “Pilotos de ponta insatisfeitos com sua condição miserável de escada ou orelha, uni-vos!”.

Você acredita numa revolução dessas? Com Massa liderando e passando para a história como o primeiro guerrilheiro defensor da “massa”, na Fórmula 1? Eu, nem um pouco. Ao menos, me diverti escrevendo este texto. Abraço a todos.

Alô, redações, assessorias de imprensa, a quem possa interessar: alguém poderia, por gentileza, me fazer chegar esse texto às mãos de Felipe Massa e Rubinho Barrichello? Tenho encontrado dificuldades para fazê-lo chegar aos dois. Grato, Tom Capri (11-3331.0688).
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