7 de fevereiro de 2012

Eis a questão: pastilhar ou não pastilhar uma fachada



Dúvida de muita gente - inclusive a minha - é sobre colocar ou não pastilhas na fachada de edifícios é abordada, de forma esclarecedora e pertinente,  pelo arquiteto e urbanista  Sylvio Rocha Nogueira, consultor em patologias da construção civil, no artigo abaixo, reproduzido aqui com autorização da Revista Digital de Projetos e Notícias, Comunidade Arquitetura. 

"... a decisão pelo "pastilhamento" será como tocar um violino: com elevada maestria, poderá ser belo e majestoso ; sem tal maestria ( mesmo "no capricho"... ), nada será mais inadequado e insalubre".

Por  Sylvio Rocha Nogueira

Muitos condomínios, buscando modernizar a construção - além de facilitar manutenção das fachadas - cedem à tentação de trocar o revestimento original
 (argamassa "raspada" ou reboco pintado, apresentando trincas, algumas infiltrações, colônias de fungos ou musgos e deposições de poeira ) pela chamada "pastilha". O assunto tem gerado intensa discussão, no meio técnico, recomendando muito bom-senso e enorme cautela:
      O PRODUTO :
      Não há objeções ao produto a utilizar, seja ele a famosa "pastilha" (ladrilho porcelânico de grés), lousa cerâmica, azulejo, litocerâmica, tijoleiras, etc. Contudo, é fundamental saber que a absorção de água , bem como as resistências mecânicas (impacto, compressão, flexão), à abrasão , à gretagem , a choques térmicos , ao frio intenso e à formação de manchas por ataques químicos variam, fortemente, de um produto para outro. Segundo a ANFACER -Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimento, os produtos cerâmicos são enquadrados em 5 (cinco) grupos principais:
      1) Porcelanatos 2) Grés 3) Semi-grés 4) Semi-porosos 5) Porosos.
      É preciso cuidado ao escolher a cerâmica, notadamente no que se refere à absorção de água, observada tabela fornecida pela mencionada associação de fabricantes, que pode variar entre zero ou 0,5% ( porcelanatos ) até 20% ( porosos).
      Pela citada tabela, o ladrilho porcelânico de grés ( mais conhecido como "pastilha" ), apresenta-se como um dos melhores produtos sob o ponto de vista da absorção de água ( atenção: não os seus rejuntes ! ). Contudo, os demais quesitos devem ser considerados, atenta e cuidadosamente, na escolha final. Eis, portanto, o primeiro e essencial cuidado.
      A REFLETIVIDADE :
      Qualquer um percebe diferenças, entre cores escuras e claras, sob insolação. Bastam experiências com automóveis ou roupas, expostos ao sol: cores escuras absorvem calor, enquanto que cores claras, refletindo a luz, aquecem menos a superfície. Com revestimentos externos, sucede o mesmo: prédios, ao absorverem calor, sofrem mais fissuras e, óbvio, mais absorção de chuvas. Assim, eis o segundo cuidado, no caminho até o "pastilhamento" : superfícies externas, nas faces voltadas para leste, norte e oeste ( no hemisfério sul ), devem ser predominantemente claras.
      A OUTRA HIPÓTESE :
      Antes de prosseguir, o condomínio deve verificar a idade do revestimento "velho" (comumente sujo e feio) e se nele existem focos, de infiltração, umedecendo faces internas das fachadas. Se tais focos não existem (ou são discretos), será sensato considerar a possibilidade de uma reforma que "não mexa no time que está ganhando"; ou seja : admitir a hipótese de uma restauração externa que preserve a "ampla porosidade" do revestimento e, pelo menos, a mesma longevidade já atingida. É muito fácil entender a razão deste conselho: fachadas funcionam como toalhas, que precisam secar após o banho; e donas-de-casa sabem, muito bem, o que acontece a uma toalha úmida, no varal, se sobre ela for colocada manta, de plástico, ainda que fartamente perfurada: secará apenas pelos orifícios ( ficando com "cheiro de vira-latas na chuva"..). Revestimentos externos mais antigos (argamassas + pintura) umedecem segundo todos os poros e secam, uniforme e rapidamente, pelos mesmos orifícios. Em fachadas cobertas com cerâmicas, contudo, a água da chuva é absorvida pelos rejuntes e, para sair ( por evaporação ) enfrenta uma espécie de "abafamento", evaporando, apenas (e muito lentamente), pelos mesmos rejuntes de ingresso, já que as lousas são estanques
 ( literalmente impermeáveis ) e predominam nas superfícies; não é preciso ser um "expert" para concluir que a água, assim bloqueada, tenderá a evaporar, com mais facilidade, pela face interna da parede, arruinando armários ou pinturas e gerando colônias de fungos. E, aí, não é raro surgir algum "especialista", que apontará a umidade urbana como única e exclusiva "culpada" pelas proliferações de bolores, ácaros e pulgões, pelas rinites e crises de asma, pelas alergias de pele, etc,etc.
      A COLOCAÇÃO :
      Se permanecer o objetivo de "pastilhar" o edifício, deve-se estar ciente de que, na colocação das lousas - como se diz na gíria - "o bicho pega". Na verdade, é preciso destacar alguns pontos de enorme importância : 
  •       a) O revestimento cerâmico deve possuir juntas especiais ("NBR-13755" ), também chamadas "de movimentação" ou "de dessolidarização". Tais juntas devem ser abertas, no corpo da parede, até o plano do chapisco, formando painéis, de apropriadas dimensões, capazes de dissipar inevitáveis deformações mecânicas (cisalhamentos, expansão das lousas por absorção de umidade, esmagamento de rejuntes, etc ) que serão impostas à nova "pele dura" das fachadas. 
  •       b) O revestimento original deverá ser previamente lavado e profundamente ranhurado, para boa ancoragem das lousas. 
  •       c) A superfície deve ser umedecida - sem saturação - antes de iniciada cada fase do novo revestimento. 
  •       d) O assentamento deverá ser efetuado com argamassa pré-fabricada, do tipo "colante", para superfícies externas, observadas, com rigor, as instruções do fabricante (condições climáticas durante o trabalho, quantidades de massa em função da velocidade de aplicação, formação de película, ferramental próprio, tempos de cura, etc, etc ). 
  •       e) Os rejuntes, entre as lousas, também devem ser pré-fabricados, de alta adesividade e aditivados com polímeros, para que possam "trabalhar", em cada painel formado pelas juntas de movimentação, sem sofrer forte esmagamento. 
  •       f) Após plena cura das argamassas (assentamento e rejuntes), as superfícies devem ser "hidrofugadas"; ou seja ; devem receber impermeabilização especial, incolor e penetrante, com preferência para produtos à base de silano / siloxano. Cabe advertir, aqui, contra o uso - muito difundido e aconselhado por "palpiteiros" - de repelentes superficiais siliconados, formadores de película, que são fotossensíveis (desagregam sob ação do sol) e podem gerar futuros problemas para as fachadas (são praticamente irremovíveis por meio químico). 
  •       g) Finalmente, as "juntas de movimentação" devem ser limpas, desengorduradas e vedadas com mástique de silicone, pigmentado, de elasticidade permanente e de cura neutra.

      O COLOCADOR :
      Além das etapas, anteriormente descritas, devem ser observados, na contratação formal do colocador - alem do prévio e adequado aconselhamento por um advogado - os seguintes requisitos : 
      1) Firma especializada, com fartas referências de clientes anteriores . 
      2) Responsável técnico (CREA) integrando o contrato social da empresa . 
      3) Adequados equipamentos de proteção individual e de segurança . 
      4) Comprovação de seguros ( vida e danos ), para empregados e terceiros . 
      5) Transcrição, no texto do contrato, de todas as especificações, produtos e procedimentos técnicos envolvidos.

      A DECISÃO :
      Como se pode perceber, a decisão pelo "pastilhamento" será como tocar um violino: com elevada maestria, poderá ser belo e majestoso ; sem tal maestria ( mesmo "no capricho"... ), nada será mais inadequado e insalubre.
Sobre o autor

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Arquiteto e Consultor em patologias da construção civil. Ex- professor universitário ( PUC/PR )
Ex-bolsista, do DAAD, junto à Technische Hochschule Stuttgart / Alemanha.
Website: www.snogueira.com/





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