10 de julho de 2012

"A viagem", meu depoimento sobre viagem à Polônia junto com Blima Lorber onde ela prestou homenagem em nome de seu pai David Lorber Rolnik, um dos sobreviventes do holocausto

Inauguração do memorial às vítimas da Marcha da Morte, nas proximidades da cidade de Busno.




Este depoimento é a propósito do lançamento do livro “As catorze vidas de David – O menino que tinha nome de rei”, de autoria de Blima e Szyja B. Lorber. A obra conta a história  do pai deles, sobrevivente do holocausto. Quando o país foi ocupado 
pela Alemanha de Hitler e pela Rússia de Stalin, na Segunda Guerra Mundial, seguiu-se uma implacável perseguição e ele foi forçado, aos 19 anos, a abandonar o lar e a família, sobreviveu a uma marcha assassina dos nazistas. 



"Pena que o mundo ainda não descobriu que é possível fazer a unidade a partir da aparente diferença".

"A Viagem"
* Marise Helene Horochovski
Em 2010,  praticamente ‘me’ convidei para viajar com Blima Lorber. Somos colegas de profissão e nos encontrávamos esporadicamente. Quando soube que ela viajaria para prestar uma homenagem em nome de seu pai David Lorber Rolnik, na Polônia, um dos sobreviventes da “Marcha da Morte”,  eu quis muito ir junto, participar do momento, por vários motivos.

Minhas origens eslavas (polonesa, ucraniana e russa - ou como é realmente o correto - polaca), pela atração irresistível pela 2a Guerra Mundial - sua história, as marcas  terríveis que deixou (vi muitos filmes, li muitos livros - “Mila 18“, por exemplo, “O Diário de Anne Frank” que faz me acabar de chorar sempre, não importa quantas vezes eu leia)  e - algo mais indefinível que sempre me acompanhou, desde muito cedo.
Sou cristã, mas algo em mim buscou sempre saber muito sobre cultura judaica, literatura judaica e, também, o humor judaico. Há piadas que são impagáveis, principalmente, sobre a “iidiche mame“. Deliciosas. Tanto fiz, quando trabalhava no Canal 12, logo no início, que obriguei o Luiz Geraldo Mazza, meu chefe querido, a me dar um livro de antologia judaica que ele tinha, no meio daquela pilha enorme de livros que o impedia de fechar as gavetas da sua mesa de trabalho. Tenho o livro até hoje, é meu e tinha que ser aquele!
Tenho poucos ídolos, realmente, não sou uma pessoa de idolatrias. Mas, um dia em uma manhã de domingo, resolvi que iria conhecer o rabino Nilton Bonder. (A história é mais longa e não cabe aqui...) Saí para almoçar no Café do Solar do Rosário e encontrei não o rabino, mas o Szyja Lorber, irmão da Blima, que me disse que Nilton Bonder estava vindo a Curitiba para uma palestra na Sinagoga na semana seguinte. Lá fomos nós - eu convidada do Szyja e da Blima - ouvir o rabino. Nunca tinha ido a uma sinagoga, a não ser como turista em algumas cidades da Europa. Quando terminou a palestra sobre “A Alma Imoral”, eu fui até ele e, não tenho vergonha de dizer, chorei porque foi libertador!
Um tempo depois, Blima e eu embarcamos - via Paris - para Varsóvia - incontáveis horas de voo e  espera em aeroportos (cinco horas só em Paris), chegamos bem tarde da noite. Cedo, no dia seguinte, começamos A Viagem. Com o rabino chefe da Polônia - a autoridade máxima dentro da hierarquia judaica no país, o americano Michael Schudrich e o representante da Fundação “Pamięć, Która Trwa"  responsável pela homenagem Zbigniew Niziński. No banco de trás do carro, Blima e eu. O cansaço que eu sentia era imenso, e a Blima de vez em quando me cutucava ("Você está roncando perto do rabino"...) Eu tenho certeza que, normalmente, não ronco, mas o cansaço era tanto que era impossível ... Depois, ela me confessou que o rabino também roncou, varias vezes. Enfim, um ronco quase sagrado...
Chegamos naquele que foi o caminho da “Marcha da Morte”,  estrada que leva a Busno, próxima à cidade de Chelm. No início de 2010, foram encontradas  ossadas numa vala comum daqueles que foram escolhidos para morrer. Os mais frágeis também  eram fuzilados e seus corpos deixados para trás.

A comunidade estava lá esperando,  jovens e os mais velhos, muitas babuskas que lembravam minha avó com aqueles típicos lenços polacos.
Foi emocionante ver minha amiga - hoje minha irmã -  discursar em nome do seu pai...David, praticamente um menino de 19 anos, tirado de casa, para enfrentar o todo o horror que estava começando no mundo ...
Almoçamos em Bialopole, em almoço oferecido pela prefeitura da cidade e preparado pelas mulheres locais. Inesquecível.
Conheci depois Chelm, a cidade dos pais de Blima, e a majestosa Lublin que percorri quilômetros à pé. Em Varsóvia, conduzida pela Blima, é claro, fiz com que ela me levasse à Mila 18, o centro da resistência do gueto de Varsóvia, assim como foi em Cracóvia.
Conheci muitos amigos de Blima, o americano John Cudak e a esposa Agnieszka que me deram de presente um livro de humor judaico em inglês. O secretário de Cultura de Chelm, Mariusz Matera, que nos deu cegonhas de pelúcia, o símbolo da Polônia. Sim, cegonhas existem, eu vi os ninhos gigantescos nos postes ao longo das estradas de veludo do país... O John nos levou para  a linda cidadezinha de Kazimierz Dolny. 

A viagem continuou pela Alemanha e Áustria. Mas, aí é uma outra história. 

É outra coisa conhecer os países como sendo "local", propiciado pela companhia da Blima que conhece tudo... Ela sabe espanhol, inglês, iidiche, etc, etc. Fui à sinagoga na Polônia no dia mais importante do Judaismo, o Dia do Perdão. Impressionante para mim. A Blima visitou igrejas católicas comigo. Sim, é possível! Pena que o mundo ainda não descobriu que é possível fazer a unidade do que poderia ser diferença.
Se eu fosse você iria comprar correndo o livro que conta a história de David, o menino que tinha nome de rei.
E eu agradeço a oportunidade de participar desses momentos em uma viagem intensa, com muito mais significado que se possa imaginar em uma simples visita a um país estrangeiro. Uma  viagem de alma! E como complementa a Blima, de coração.

Um PS sobre o que chamo "Do lado sutil da vida": Tenho que dizer que senti a presença do pai da Blima o tempo todo ao nosso lado. Não preciso fazer força para ver o rosto do homem que não conheci em vida, o tempo todo sorridente, junto a nós. Acreditam? Não é preciso porque é muito pessoal e intransferível. Assim como foi o encontro com a tia Mônica, em Munique, na Alemanha. Foi amor à primeira vista e seu rosto me acompanha sempre que me sinto triste, Mônica me dá forças. Aliás, creio que fui a Munique só para conhecer a sobrevivente de guerra que morreu um mês depois de nos encontrarmos (Tia Mônica partiu dormindo, com 90 anos). Mas, esta também é uma outra história... Como eu disse: minha, pessoal e intransferível. E, portanto, maravilhosa!
* Marise Helene Horochovski, editora do Artetecta.
Serviço

Nos dias 9 e 16 de agosto acontece o lançamento do livro “As catorze vidas de David – O menino que tinha nome de rei” (Sêfer, 2012, 304 páginas), de autoria de Blima R. Lorber e Szyja B. Lorber. A professora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Arquivo Virtual sobre Holocausto e Antissemitismo (Arqshoah), da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, escreveu o prefácio. Segundo ela, “este livro dá segmento ao programa do Arqshoah denominado Coleção Testemunhos de incentivar filhos e netos, dentre outros, a assumirem o legado deixado pelos sobreviventes do Holocausto”. O livro “As catorze vidas de David” será lançado em 9/8, às 19h, na Livraria Cultura do Shopping Curitiba (R. Brigadeiro Franco, 2300, Loja 306, Curitiba) e no dia 16/8, às 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073, Cerqueira César), em São Paulo.

Fotos de "A viagem", um pequeno registro da cerimônia ecumênica durante a inauguração do Memorial que eu tive a oportunidade de acompanhar. Um padre, um pastor e um rabino fizeram a homenagem aos que morreram durante a Marcha da Morte, perto da cidade de Busno.


Blima Lorber e o rabino Michael Schudrich

Abaixo, Blima Lorber discursa em inglês com 
a ajuda de tradutora para o polonês
**Estou ali no centro, de óculos,  ouvindo a Blima falar.

                      Muitos jovens e o mais velhos da comunidade
 foram prestar homenagem
Ao pedir para tirar a foto, a senhora de preto tirou o lenço tão típico das babuskas...
Trecho da chamada "Estrada da Morte"


Representante da Fundação responsável pela homenagem, Zbigniew Niziński  e o rabino Michael Schudrich


Abaixo, algumas imagens do muro do gueto de Varsóvia e de edifício que guarda na fachada a imagem daqueles que moravam ali



* *Uma foto como esta foi publicada em um jornal de Lublin, achei bem legal que uma descendente tenha saído em uma publicação da Polônia.

Um comentário:

  1. Marise, irmã de coração!

    Foi muito bom tê-la como companheira de viagem. Parece mesmo que tínhamos que ficar juntas e atravessar o mundo para mostrar às pessoas como é bom conviver, respeitar as diferenças e aprender uma com a outra.
    Estou agradecida por ter compartilhado de uma cerimônia tão emotiva, reverenciando a memória de meu amado pai e homenageando aqueles que não tiveram que foram cruelmente assassinados nessa terrível Marcha da Morte.
    Tenho certeza que Papai e a tia Mônica, onde eles estiverem, estão sorrindo e abençoado você.
    Nem preciso dizer que as suas palavras fizeram com que lágrimas brotassem dos meus olhos e sentisse um aperto no coração.
    Obrigada, Marise, por ser esta pessoa incrível e verdadeira, companheira e amiga mesmo!
    Vamos viajar de novo?

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