14 de dezembro de 2012

"A quatro mãos e às cegas" assim foi escrito "Fim de tarde com leões", da jornalista Paula Fontenelle


A Geração lança a primeira obra de ficção de Paula Fontenelle, uma história de amor escrita juntamente com P. W. Guzman, que prefere manter-se oculto e não assinar a obra



Após o lançamento de dois livros de reportagem, sendo o segundo,  Suicídio: um futuro interrompido, finalista do Prêmio Jabuti 2009, a jornalista pernambucana Paula Fontenelle estreia na ficção com o romance epistolar Fim de tarde com leões, escrito a quatro mãos com P. W. Guzman. Trata-se da troca de cartas de um casal após a perda do filho adolescente e o fim do relacionamento. “Guzman é um homem de difícil acesso: reservado por natureza, recolhido e de poucos amigos por escolha”, escreve Paula no prefácio do romance. O coautor prefere ficar oculto, por isso não divide a assinatura do livro.

A Geração conseguiu localizá-lo e, sob a promessa de não revelar seu endereço eletrônico a ninguém, o convenceu a escrever a orelha do romance. Modesto, Guzman justifica a ausência de sua assinatura no volume: “Como eu já havia dito à Paula, amiga que tão bem me conhece e entende, o livro é mais dela do que meu”. E acrescenta: “Aliás, é todo dela – foi Paula Fontenelle quem teve a ideia, foi ela quem escreveu o primeiro capítulo e me estimulou a entrar no jogo de cartas entre Lúcia e Pedro. Inteligente, arguta, viajada, ela sabe como ninguém domar leões”.

A obra apresenta uma inovação em seu processo criativo. Durante longos meses, Paula e Guzman escreveram o romance em cartas imaginárias de Lúcia e Pedro em busca de “uma história densa, comovente e, ao mesmo tempo, divertida e de valor”, como afirma a autora no prefácio. Mas em nenhum momento eles planejaram a trama, ao contrário, a surpresa fez parte do processo, já que nenhum sabia como a história se desenvolveria na carta seguinte. Paula se lembra de alguns sustos. “Quando escrevi logo no início sobre a perda de um filho, pensei num aborto espontâneo. Na carta seguinte, ele relembra o acidente de um jovem de catorze anos e me culpa por tê-lo deixado dirigir. Fiquei um bom tempo atônita até encontrar uma continuidade para esse enredo. E foi assim até o final”, lembra.

Na troca de cartas após a separação, Lúcia e Pedro relembram altos e baixos do relacionamento e falam da vida atual difícil, com mudanças no cotidiano dos dois e uma saudade dolorosa. Ela é uma fotógrafa de renome de agências de modelos que fica desempregada (chega a fazer fotos pornôs, que prefere não assinar); ele, um funcionário público (e talvez espião: sempre troca de passaporte) em missões misteriosas pelo mundo afora, principalmente na África. Lúcia tem um temperamento inconstante e neurótico, é uma mulher de emoções intensas. Pedro se mostra um homem de caráter no mínimo questionável, mas sua paixão por Lúcia traz à tona sentimentos carinhosos e ocultos.

As cartas se tornam íntimas (“É excitante me lembrar de seu olhar desejoso, da sua pressa intumescida e ardente que eu controlava ao limite! Saudades!”). Lúcia tenta o reatamento (“Ando renascendo. Para você”); Pedro nota nas cartas da ex-mulher “uma melodia de sereia cujos versos são de convite e tentação”, mas, envolvido em aventuras, se esquiva. Como afirma o coautor na orelha de Fim de tarde com leões, não se deve revelar muito da história para não privar o leitor de suas descobertas. “Devo confessar ainda que li com emoção contida – sou duro na queda – o texto de apresentação da autora, que foi tão generosa nos adjetivos sobre mim”, escreve Guzman. “Também me surpreendi com o resultado do trabalho de mais de um ano, sobretudo com a guinada, de estilo e gênero literário, no final da história”, acrescenta.

O coautor observa ainda que a personagem Lúcia tem alguma coisa de Paula Fontenelle e que Pedro possui traços da personalidade dele, Guzman, que ele só notou quando leu o livro por inteiro. “Juro que não foi nada proposital, pelo menos da minha parte”, escreve.

As cartas do casal fictício oscilam entre “um amor vestido de angústia e ornado de esperanças” e “a nudez pura e simples do ódio”. Lúcia e Pedro não falam somente sobre eles (“a paixão que nunca nos deixou esquecer um do outro”), mas também sobre política internacional (principalmente os segredos dos bastidores), trabalho (e suas injustiças), jovens “pós-modernidade: pais ausentes, excesso de liberdade e pouca orientação para a vida”, como escreve Lúcia, e ainda sobre sofrimento e sonhos reais ou impossíveis. Em linguagem simples, do dia a dia, Fim de tarde com leões é um romance que vai inquietar e fazer pensar casais unidos ou separados.

Sobre a autora

Natural do Recife, a jornalista Paula Fontenelle publicou pela Geração o livro de reportagem Suicídio – o futuro interrompido, que ficou entre os finalistas do Prêmio Jabuti de 2009. É autora também de Iraque – a guerra pelas mentes. O romance Fim de tarde com leões é seu primeiro livro de ficção.

Leia entrevista com a autora

Depois de publicar dois livros de reportagens com se sente lançando o seu primeiro romance?
Particularmente feliz porque nunca tinha pensado nessa possibilidade de escrever ficção. Como jornalista, tinha uma cabeça voltada para obras de reportagem com muita pesquisa, entrevistas, apuração cuidadosa de dados. Romance? Nem pensar! De repente surgiu essa ideia de escrever a quatro mãos e senti um desejo imenso de dar prosseguimento a esse projeto. Hoje, olho para o livro e ainda é difícil de acreditar, certamente uma conquista inesperada até para mim.

 De onde surgiu a ideia do Fim de tarde com leões? Alguma experiência pessoal?
Aconteceu em 2007, de repente me surgiu a ideia de criar um livro de ficção de uma forma inovadora, a quatro mãos e às cegas, ou seja, nós nunca conversaríamos sobre o andamento da história, cada um criaria sua parte, surpreendendo o outro e estimulando a criatividade ao máximo. Precisei apenas decidir quem convidaria para ser o coautor, teria que confiar muito na pessoa, em seu comprometimento com a obra, alguém que escrevesse muito bem e que fosse criativo.

Como conheceu P. W. Guzman? Quem é ele?
Deixo claro no prefácio do livro que a segunda pergunta nunca será respondida. Guzman (pseudônimo escolhido por ele), é um amigo querido de longas datas, sempre sonhei em nós criarmos algo juntos, então, quando surgiu essa ideia, sabia que teria que ser ele o parceiro para o livro. Desde o começo, me pediu para permanecer anônimo, algo que respeitarei sempre porque é o mínimo de retribuição por ter mergulhado nesse sonho comigo.
Guzman teve uma atitude de desprendimento enorme no final da obra. Ele me deu o livro de presente dizendo que só havia participado porque era comigo, mas que nem queria aparecer, tampouco participar dos direitos autorais. Como poderia trair sua confiança e revelar seu nome depois de tantas demonstrações de lealdade?

Quando decidiu convidá-lo a escrever a história com você? Por quê?
Sempre quis escrever o livro com ele, mas não sabia se toparia. Guzman tem uma vida louca, viaja muito, às vezes passamos meses sem notícias um do outro. De repente, um dia estávamos jantando em São Paulo e propus a ideia, ele topou na hora e com brilho nos olhos. Começamos imediatamente, na mesma semana já havíamos escrito duas cartas.
Queria o Guzman primeiro porque temos uma relação antiga, já passamos por muitos momentos juntos, acompanhamos a vida um do outro, mesmo que à distância, com muito carinho. Segundo, porque sou apaixonada por seus textos, ele escreve super bem, temos uma intensidade emocional parecida, acreditava que isso seria rico para a construção de um enredo denso e interessante.

E a escolha do gênero epistolar? Foi ideia sua ou dele?
O livro sempre foi criado para ser escrito por meio de cartas, nunca houve outro modelo. A ideia básica era: duas pessoas criariam a história carta a carta, texto a texto, surpreendendo. Vou te dar uma ideia. Logo no início questionei se o marido responderia ou não minha tentativa de reencontra-lo usando como justificativa da dúvida a “perda de nosso filho”. Quando escrevi, tinha em mente que essa perda seria um aborto espontâneo. Pois bem, na carta seguinte ele respondeu relembrando o acidente de carro de um filho com 14 anos! Fiquei olhando para aquilo e pensando: o que faço com isso? Essa surpresa se repetiu em cada texto e para os dois. Até os nomes dos personagens demoraram para aparecer, você verá isso no livro. Nem isso a gente combinou, aí, um certo dia recebo carta com os dois nomes, ele havia resolvido o impasse.

Como foi o processo para escrever o livro? Em quanto tempo escreveram?
A única regra que estabelecemos foi em relação ao tempo que levaríamos para finalizar a história. Seria um ano completo com pelo menos duas cartas de cada por semana, assim garantíamos uma quantidade consistente de textos.

Por que Guzman preferiu ficar oculto? Ele é alguém famoso?
Lá vem você de novo pescando o nome do coautor. Famoso? Sim, mas não acredito que essa tenha sido sua motivação em ficar oculto, tem mais a ver com seu jeito de ser. Mesmo sendo bastante conhecido em sua área de atuação, Guzman é tímido e recluso, sempre foi, sempre será.

A personagem Lúcia tem alguma coisa de Paula Fontenelle? E Pedro? Há traços da personalidade de Guzman, na sua opinião?
Claro! Ficção sempre tem pedaços da realidade e acho difícil criar um personagem sem características autobiográficas. Guzman brinca muito comigo sobre isso, ele diz que Lúcia tem muito do que eu escondo em meu temperamento. Sou uma pessoa bastante tranquila, curto a moderação, mas invejo os excessos da Lúcia, então acho que botei para fora alguns desejos que permanecem em silêncio. Quanto ao Pedro, também enxergo nele pedaços do Guzman, principalmente no que diz respeito à inteligência e à capacidade de externar suas paixões. Guzman também é muito carinhoso, como Pedro, e não pensa duas vezes antes de expressar suas emoções. Vive intensamente.

No momento está escrevendo algum outro livro?
É engraçado você perguntar isso porque passo agora por um momento que se repete toda vez que lanço um livro. Ao terminar, acho que nunca escreverei outro e entro em uma espécie de vazio criativo. Aí, do nada, vem uma ideia, eu me apaixono por ela e lá vou eu novamente começar do zero. Foi assim com os outros também. Talvez agora eu me sinta segura em dar andamento a uma vontade antiga, que veio logo depois que escrevi Iraque: a guerra pelas mentes. A de escrever um livro infantil, tenho até a protagonista relativamente bem construída. Veremos.


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