21 de março de 2013

Valêncio Xavier, múltiplo e singular




Hoje Valêncio Xavier, escritor, cineasta, roteirista e diretor de TV, faria 80 anos. 
Tive a honra - e porque não dizer, o prazer - de trabalhar com Valêncio Xavier na TV Paranaense (RPC) e garanto: foram ótimos momentos, de aprendizado, mas também momentos muito divertidos porque Valêncio fazia as coisas serem leves e isto era tão difícil naquele ambiente de trabalho... Fiz muitas matérias produzidas por ele, como na aldeia indigena de Mangueirinha, com o cacique Angelo Cretã (um lider indígena que foi assassinado anos depois). Sem contar as sessões de cinema à meia-noite que ele promovia em Curitiba no antigo Cine Condor e que nem eu, nem muita gente, mas muita gente mesmo, não perdia por nada. Meia-noite, cinema de rua e lotado. Não eram só outros tempos, era Valêncio Xavier.


Valêncio Xavier Niculitcheff (São Paulo21 de março de 1933 – Curitiba5 de dezembro de 2008) foi um escritorcineastaroteirista e diretor de TV brasileiro.


Paulistano de nascimento, Valêncio mudou-se para a cidade de Curitiba aos 21 anos de idade. Na capital paranaense trabalhou na TV Paranaense (atual RPC TV) e na afiliada da Rede Tupi, a TV Paraná (atual CNT). Neste meio, escreveu dramas e chegou a dirigir episódios do Globo Repórter.

Valéncio por Bennet
Atrás das câmaras, agora voltado ao cinema, atuou como diretor, assistente de direção, montador, roteirista e consultor. Dirigiu vídeos como: "O Pão Negro - Um Episódio da Colônia Cecília" de 1993 e "Os 11 de Curitiba, Todos Nós", entre outros. Recebeu o prêmio de "Melhor Filme de Ficção" na IX Jornada Brasileira de Curta-metragem, por "Caro Signore Feline" de 1980.
Junto com Francisco Alves dos Santos, criou, em 1975, a Cinemateca de Curitiba, ligada à Fundação Cultural. Também exerceu a função de diretor em museus e espaços culturais da capital.
Nas letras, Valêncio Xavier escreveu narrativas em jornais e revistas, como: Nicolau, Revista USP e o caderno Mais! da Folha de S. Paulo. Foi colunista do jornal Gazeta do Povo de 1995 a 2003.
Como um dos representantes do movimento de literatura experimental, ganhou boas críticas na imprensa nacional ao escrever livros como:
- 7 de Amor e Violência (antologia com outros autores) – 1964;
- Desembrulhando as Balas Zequinha – 1973;
- Curitiba, de Nós (em parceria com Poty Lazzarotto) – 1975;
- Maciste no Inferno – 1983;
- O Minotauro – 1985;
- O Mistério da Prostituta Japonesa & Mimi-Nashi-Oichi –1986;
- A Propósito de Figurinhas (em parceria com Poty Lazzarotto) – 1986;
- Poty, Trilhas e Traços (uma biografia de Poty Lazzarotto) – 1994;
- Meu 7º dia – 1998;
- Minha Mãe Morrendo e o Menino Mentido (uma espécie de autobiografia literária) – 2001;
- Crimes à Moda Antiga – 2004, entre outros.
Xavier traduziu "Conversa na Sicília" em 2002, de Elio Vittorini, com Maria Helena Arrigucci. Foi o ganhador do Prêmio Jabuti de melhor produção editorial em 1999.
Algumas de suas obras inspiraram peças de teatros e o livro "O Mez da Grippe" virou filme, dirigido por Beto Carminati.
Na manhã da sexta-feira, dia 5 de dezembro de 2008 morreu, devido a complicações de uma pneumonia, Valêncio Xavier Niculitcheff, aos 75 anos e 8 meses
Abaixo trechos de texto de IRINÊO NETTO, DA GAZETA DO POVO.
"Nenhuma outra experiência de aliar imagem e texto foi tão contundente na literatura brasileira quanto a de Valêncio Xavier. O autor de O Mez da Grippe (1981) e de várias outras histórias morreu às 11h30 da manhã desta sexta-feira (5) devido a complicações ligadas a uma pneumonia. Ele tinha 75 anos e passou 82 dias internado no Hospital São Lucas, mais da metade deles na Unidade de Tratamento Intensivo.
(...)
Um escritor de livros que pediam para ser assimilados como filmes, Xavier conheceu o sucesso de crítica e de público no final dos anos 1990, quando teve parte de sua obra publicada pela Companhia das Letras, depois de uma indicação da crítica literária Flora Süssekind. E ganhou projeção nacional ao ser elogiado pelo escritor Décio Pignatari.
Paulistano que vivia em Curitiba “há 500 anos”, como disse certa vez, Xavier escreveu para a Gazeta do Povo entre 1995 e 2003. Não por acaso, seu primeiro trabalho para o jornal foi um especial sobre os cem anos do cinema.
“Ele era um pioneiro da narrativa do romance icônico-verbal. Um marginal mais ou menos oficial. Não é uma obra do mainstream da prosa brasileira. O Valêncio vai ser lembrado por essa produção híbrida entre o verbal e o não-verbal. Ele era único. Pensava as coisas de modo diferente”, diz Pignatari, que se tornou amigo do escritor mais de 20 anos atrás, ao descobrir O Mez da Grippe.
A reedição da Companhia das Letras compilou a novela célebre com outras quatro, incluindo Maciste no Inferno (1983) e O Minotauro (1985), e acabou vencendo o Prêmio Jabuti 1999 de melhor produção editorial.
Todos os que o conheceram o identificavam como cinéfilo. O escritor e tradutor Boris Schnaiderman afirma que os livros de Xavier devem ser encarados como uma “experiência arrojada de prosa”. “Ele era original, sensível e muito ligado ao cinema. Na obra dele, a imagem e o texto têm um vínculo íntimo. O Mez da Grippe é notável”, diz.
O tradutor chegou a escrever sobre Xavier para a Revista USP, da Universidade de São Paulo. No estudo, destacou o modo com que o autor trouxe para o livro as vivências que adquiriu em outros meios – sobretudo o cinema e a televisão.
Embora tenha se tornado uma referência na literatura, cultuado por uma geração mais jovem que a sua – formada por Joca Reiners Terron e Marcelino Freire, entre outros –, Xavier tinha uma paixão fora do comum por filmes.
Ele realizou vários trabalhos atrás das câmeras, atuando como diretor, assistente de direção, montador, roteirista e consultor. O seu Caro Signore Feline (1980) venceu o prêmio de melhor filme de ficção na 9ª Jornada Brasileira de Curtas-Metragens. Neste ano, seus livros inspiraram peças de teatro – duas montagens feitas pela Pausa Companhia – e filmes – Beto Carminatti e Pedro Merege estrearam no 3º Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino o longa-metragem de ficçãoMystérios e finalizam o documentário As Muitas Vidas de Valêncio Xavier.
Em um texto para o jornal literário Rascunho, de abril de 2001, o escritor José Castello afirmou que Xavier “escreve como um cineasta: recorta, ilumina, acopla, monta. É do contraste, da surpresa, da assimetria, que suas palavras arrancam força. Elementos que se deslocam, que se enfrentam, que saltam uns sobre os outros, que se comem, como num tabuleiro de xadrez. (...) Ele tem uma visão larga, audaciosa, da literatura, que escreve para desafiá-la, que com ela faz o que bem entende – e, agindo assim, exerce como poucos aquilo que há de mais sagrado para um escritor, que é sua liberdade.”
Na Universidade Federal do Paraná, a professora e pesquisadora Marta Morais da Costa organizou uma disciplina na pós-graduação baseada nos livros de Valêncio Xavier. Em 2004 e 2005, o escritor aceitou convites para ir à sala de aula e debater sua obra com os estudantes. Marta acredita que ele será lembrado como um inventor – citando uma das categorias criadas pelo poeta Ezra Pound –, além de ter sido uma pessoa generosa cuja simplicidade era evidente. “Até para reconhecer a qualidade estética (de sua obra). Como se a literatura fosse um jogo, uma brincadeira”, diz Marta.
(...)
Criou a Cinemateca do Museu Guido Viaro em 1975 – que se tornaria a Cinemateca de Curitiba 23 anos mais tarde –, espaço responsável pela formação de vários cineastas paranaenses, identificados como a Geração Cinemateca, da qual fazem parte Carminatti, Fernando Severo e Berenice Mendes".

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