14 de junho de 2013

A "Foto do Dia" : Tenho em mim todos os sonhos do mundo...

Dia 13 de junho, data em que se comemora o aniversário de Fernando Pessoa. Nos 125 anos de nascimento do poeta, um flagrante das manifestações de rua que acontecem em São Paulo. Compartilhei da página do Facebook Projeto Letrinha. É do poema Tabacaria (Álvaro de Campos), o meu preferido, com ele Fernando Pessoa me fisgou para sempre!

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo..."



Tabacaria é um poema escrito em 1928 por Álvaro de Camposheterônimo de Fernando Pessoa. Abaixo, um trecho do poema.
Tabacaria
             "Não sou nada. 
             Nunca serei nada. 
            Não posso querer ser nada.
            À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
            Janelas do meu quarto,
            Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
            (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
            Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
            Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
            Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
            Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
            Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
            Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

            Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
            Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
            E não tivesse mais irmandade com as coisas
            Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
            A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
            De dentro da minha cabeça,
            E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

            Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
            Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
            À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
            E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

            Falhei em tudo.
            Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
            A aprendizagem que me deram,
            Desci dela pela janela das traseiras da casa.
            Fui até ao campo com grandes propósitos.
            Mas lá encontrei só ervas e árvores,
            E quando havia gente era igual à outra.
            Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

            Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
            Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
            E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
            Gênio? Neste momento
            Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
            E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
            Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
            Não, não creio em mim.
            Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
            Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
            Não, nem em mim...
            Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
            Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
            Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
            Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
            E quem sabe se realizáveis,
            Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
            O mundo é para quem nasce para o conquistar
            E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
            Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
            Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
            Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu...".
            

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