18 de setembro de 2013

ARTIGO: A água é um direito humano?


* por Célio Pezza

Curioso como existem coisas que dão uma enorme volta durante anos e voltam ao ponto de partida. Digo isto porque, desde 2005, que o então presidente da Nestlé, o austríaco Peter Brabeck, defende a tese de que a água deveria ser privatizada, pois, desta forma, haveria maior conscientização sobre sua importância. Ele alega que muita gente não dá valor, pois a água é de graça. Para ele a água não é um direito do ser humano e deveria ser tratada como um combustível ou outra mercadoria qualquer, com preços sujeitos às flutuações de mercado.
Durante a sua gestão, a Nestlé se consolidou como líder mundial de venda de água engarrafada e tem investido pesado na aquisição de pequenas empresas exploradoras de água mineral e áreas com mananciais. Agora, durante uma entrevista em 2013 ao IMD (International Institute for Management Development), este empresário, que continua como Presidente do Conselho da Nestlé, volta ao assunto e diz que os governos de todo o mundo devem avaliar essa privatização com urgência. Também alerta que o mesmo com os alimentos e defende o uso de alimentos geneticamente modificados como uma solução.
Por outro lado, temos a opinião de especialistas contrários aos alimentos modificados, que defendem que o problema é o modelo de uma agricultura transformada em indústria, onde se busca o lucro a qualquer custo, além da má distribuição e utilização dos alimentos.
Voltando às águas, temos o exemplo da atuação da Nestlé, na cidade de São Lourenço - MG, onde existiam as águas minerais famosas por suas propriedades medicinais. Depois que compraram o Parque das Águas e receberam a concessão de explorar o subsolo, mudaram as características das águas, rebaixaram em vários metros os poços e passaram a extrair quantidades enormes de água. Também fizeram modificações químicas e transformaram uma excelente água mineral em uma água “purificada”.
Diversas organizações da cidade vêm combatendo essa prática há anos, mas, curiosamente, essa briga contra a empresa em São Lourenço tem muito mais divulgação na Europa e na própria Suíça do que no Brasil. Atualmente esses grupos de defesa das águas minerais solicitaram ao Ministério Publico a abertura de inquérito contra a Nestlé e a cassação de sua concessão.
A questão da água tem duas abordagens: uma focada no mercado e outra no serviço público. Será que ficaremos nas mãos de poucas grandes empresas, donas das vertentes, das fontes e que irão ditar quanta água podemos beber, qual o tipo de água e a que preço? Afinal de contas, a água é um direito humano ou não? Para a Nestlé, não é.

* Célio Pezza é escritor e autor de diversos livros, entre eles: As Sete Portas, Ariane, A Palavra Perdida e o seu mais recente A Nova Terra - Recomeço. Saiba mais emwww.celiopezza.com / Blog: http://celiopezza.com/wordpress/


** Atenção: os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam, necessáriamente, a opinião do blog.



Nenhum comentário:

Postar um comentário